SHOFAR – O TOQUE DA RENOVAÇÃO

Por Gutemberg B de Macedo

“Então a nossa boca se encheu de riso e a nossa língua de cântico; então se dizia entre os gentios: Grandes coisas fez o Senhor a estes. […] Aqueles que semeiam em lágrimas, colherão com alegria. Aqueles que levam a preciosa semente, andando e chorando, regressarão sem dúvida, com alegra, trazendo consigo os seus molhos”.

Cântico dos degraus

Deus é louvado porque resgatou o povo judeu do cativeiro

A palavra “Shofar” no hebraico, tem o significado de “melhorar”, “reformar”, “recuperar”, “renovar”.  O processo do julgamento pessoal não atém na autoflagelação, mas no reconhecimento daquilo que se deve mudar e promover a transformação. Para tanto, formula-se as perguntas mais singelas e perspicazes a respeito de nossas vidas, como: quem sou eu? Onde eu quero ir? Qual o meu amor verdadeiro? Quais são os meus objetivos? São questionamentos incansáveis e universais, independentemente da religião que se pratica, pois cada vez que refletimos sobre elas e, especialmente às vésperas do Ano Novo (Rock Hachanah) podemos dar maior sentido às nossas vidas, corrigindo nossos defeitos e redirecionando os nossos planos a fim de entrar de forma mais completa e sábia no ano vindouro.

O “Shofar” emite um som que parece o chorar de uma pessoa. Esse sinal sonoro nos remete à simplicidade da vida e incentiva o julgamento pessoal que cada um de nós devemos fazer. Ele nos estimula a buscar consciência de nossos atos, intenções e atitudes a fim de nos arrependermos dos erros que tenhamos cometido em relação ao nosso próximo e em relação a nós mesmos. Ele nos remete ainda a uma reflexão mais profunda a respeito de nossos descontentamentos: fantasias, promessas e intenções de melhorias que nós planejamos e não conseguimos executá-las. Quantas vezes prometemos fazer algo diferente e nos acovardamos? Quantos vícios maléficos nós incorporamos em nossas vidas e não conseguimos nos livrar deles?

O processo de renovação permeia todo o universo. Observem tudo o que nele há e acontece aos nossos olhos – o movimento das marés, a transformação das árvores e das plantas, o movimento dos planetas – o sol e a lua nunca nascem ou se põem no mesmo lugar -, o sopro do vento, entre tantas outras coisas. É a natureza em sua transformação e renovação permanentes.

Ao longo da história das civilizações – antigas ou modernas, encontramos o mesmo princípio claramente explicitado: “O progresso vem com as pessoas que pensam diferente do senso comum. Sem os inconformistas,  você não avança”.

No Cristianismo aprendemos: “E não vos conformeis com o presente século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”.

No entanto, a despeito dessas sábias observações, muitas pessoas resistem ás mudanças e, sem desejarem, chamam para si os mais diversos dissabores, especialmente a ignorância própria a respeito de sua natureza e necessidade de evolução, a mediocridade intelectual, a acomodação em seu “modus operandi”, a cegueira em relação às suas próprias crenças e tantos outros aspectos restritivos ao seu crescimento no mais amplo sentido: espiritual, intelectual, emocional, social e, especialmente, moral.

O Homem que não evolui é um peso para toda a sociedade. Torna-se obtuso, idiossincrático, impermeável e na maioria das vezes se torna um grande tirano. Sua moralidade é altamente questionável. Ele se acha o rei e senhor de suas verdades e, por ele mesmo, incontestáveis.

A renovação individual é um imperativo de nossa Era. Portanto, ou avançamos rapidamente ou morreremos mais rápido ainda.

A renovação nos possibilita:

Aprender continuadamente

Quem para de aprender coisas novas todos os dias acaba por adquirir uma visão pobre e muito limitada do mundo e se torna adestrado e dependente. Não desenvolve a autossuficiência e seu nível de contribuição é irrisório. Torna-se descartável e inútil. Assistimos dia após dia milhares de profissionais perdendo seus postos de trabalho porque não se atualizaram e, muito menos perguntaram para si próprios de quem é a responsabilidade pelo desenvolvimento de suas carreiras?

Reinventarmo-nos

Aceite o que você “não pode mudar”. São pouquíssimas as coisas que  não podemos mudar verdadeiramente: alguns aspectos físicos, a despeito das cirurgias plásticas,  e de personalidade, apesar da ajuda de psicoterapeutas, psicólogos etc.  Mas mesmo assim são passíveis de melhorias continuas e substanciais.

São inúmeras as coisas que “não queremos” mudar. Discernir entre elas – aquilo que você “não pode” ou o que você “não quer” faz uma grande diferença: em geral, as coisas que não queremos mudar são extremamente significativas para o nosso crescimento: os vícios, a preguiça, comportamentos tóxicos, desrespeito, ignorância, falta do dever ético, entre tantos outros.

A necessidade de se reinventar é imperativa. Tudo muda e em velocidade da luz. Se não mudarmos nossas crenças, aperfeiçoarmos nossos talentos e adquirirmos novas habilidades sucumbiremos em curtíssimo prazo – a quarta revolução industrial vai engolir-nos.  Os tempos atuais pedem reinvenção em todos os sentidos senão, seremos incapacitados de viver em uma sociedade e de sentirmos úteis a ela.

Corrigir comportamentos e aprimorar atitudes

A nossa vida é consequência das atitudes que escolhemos adotar, e não das adversidades pelas quais passamos.

Tendemos a reclamar de tudo e acreditar que estamos fora dos problemas. A renovação autentica precisa começar em nós mesmos. A reflexão a respeito de nossos atos e de nossas intenções pode espelhar com clareza os pontos primordiais de aperfeiçoamento na comunicação, na atitude, no auto respeito e no respeito aos outros. Só desenvolvemos a sensibilidade ética quando, além de aprendermos a respeito dos valores conseguimos também praticá-los.

Desapego

O Shofar é um instrumento tocado apenas para os homens diferentemente da flauta e de outros instrumentos similares tão antigos quanto, mas que também serviam para o pastoreio das ovelhas. Seu som é para dizer no ouvido de cada ser humano que ele pode melhorar desde que, jogue fora as coisas, atitudes e pensamentos que não lhe convêm mais ou que não convêm ao trato com os outros. Indica o que se deve eliminar para entrar o novo, esse é o ciclo do Rosh Hashaná. É a limpeza da alma abrindo espaço para a renovação.

Caro leitor, “o mundo não está apenas mudando rapidamente” como escreveu Don Seidman, “mas está sendo drasticamente reconfigurado – está começando a operar de maneira diferente” em varias esferas ao mesmo tempo.

Diante dessa nova realidade temos duas opções: a primeira, fazermos soar o nosso “Sophar” a fim de ele acorde aqueles que permanecem sonolentos e agindo como se todas as coisas permanecessem do mesmo jeito para sempre – sem nenhuma mudança. E, a segunda, ao ouvir o som  do “Sophar” despertar rapidamente a fim de dar inicio ao processo de renovação individual em todos os aspectos da vida – físico, mental intelectual, psicoemocional, espiritual, familiar, profissional e de cidadania.

Que soe o Sophar!

Acredito que Deus nos dotou de inteligência e capacidade bem maior de moldar o nosso presente e o nosso futuro também, do que nos permitimos pensar.

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