SEJA DISCRETO NA PROCURA DE NOVO EMPREGO CASO ESTEJA EMPREGADO

Por Gutemberg B. de Macedo

“Seja grandioso o comportamento, visando à superioridade. Quem é grande por posição não deve ser pequeno no proceder”.

Baltasar Gracian Filosofo, Politico e padre jesuíta espanhol, 1601-1658

Durante minha longa e bem-sucedida trajetória como consultor e conselheiro para milhares de profissionais, de gerentes a presidentes, tenho sido questionado com frequência sobre qual é a melhor hora para um executivo mudar de emprego.

A essa indagação, minha resposta é sempre muito objetiva e peremptória: “a melhor hora para um profissional prospectar nova posição no mercado de trabalho é quando ele ou ela está bem colocado e a sua reputação e méritos são reconhecidos dentro e fora de sua organização”. E, comumente, acrescento a minha assertiva, as palavras prudentes e sábias, em forma de advertência, de Baltasar Gracian, “Não espere até que o sol esteja em declínio. Os prudentes têm por regra deixar as coisas antes que as coisas os deixem”.

 Nos dias atuais, inúmeras são as razões que motivam os profissionais, em todos os níveis hierárquicos, a pensar em mudar de empresa:

  • A crescente onda de fusões e aquisições que, inevitavelmente, elimina centenas ou milhares de postos de trabalho.
  • Os projetos de reengenharia e “downsizing” que têm na maioria das vezes como objetivo a redução da força de trabalho, pura e simplesmente.
  • A mudança inesperada de um superior imediato com o qual não têm nenhuma afinidade ou mesmo redução dos benefícios corporativos – concessão de bônus, assistência médica e odontológica automóvel e aposentadoria, entre outros.
  • A insatisfação crescente com o ambiente de trabalho e a falta de perspectiva à novas promoções a médio e longo prazos. Eles reconhecem que estão em processo de estagnação profissional e que algo precisa ser feito imediatamente para reverter tal realidade.
  • A perda de participação no mercado dos produtos da empresa em que trabalha decorrência da falta de inovação tecnológica ou mesmo falta de alinhamento estratégico com os novos cenários econômicos, políticos, culturais e sociais.
  • O profissional é preterido à novas promoções e, por vezes, é obrigado a assumir posição inferior, de vice presidente para América Latina a simplesmente diretor no Brasil.
  • A insatisfação com o seu pacote de remuneração e a falta de perspectiva de melhorá-lo a curto ou médio prazo.
  • A perda de prestígio e imagem negativa cristalizada internamente. O seu trabalho já não tem o mesmo valor e não impacta nos negócios da companhia como antes. E, acima de tudo, não é respeitado e, muito menos, reconhecido – perde totalmente seu poder para influenciar e opinar sobre a condução dos negócios.
  • O Profissional se sente desmotivado em razão do esgotamento psicoemocional, da carga de trabalho excessiva e das cobranças cada vez maiores, da longa permanência na mesma empresa ou mesmo quando simplesmente deseja fazer coisas diferentes.
  • O profissional não encontra qualquer prazer em deixar o seu lar e ir para o seu trabalho. Nessa circunstância, tudo e todos servem como pretextos para reclamações, na maioria das vezes, infundadas. Por outro lado, torna-se uma pessoa amarga, crítica negativa e que contamina, negativamente, as pessoas ao seu redor.
  • A busca pura e simples do seu valor de mercado. Ou por uma afirmação pessoal ou para barganhar com a empresa. Essa estratégia é a mais trágica, porque seu futuro estará decretado pela empresa. Se houver ganhos pessoais, eles são apenas de curtíssimo prazo. Em longo prazo, a sua demissão já está decretada.
  • Consequentemente, ele ficará cada vez mais isolado, preterido e esquecido. Será que você, caro leitor, já viu esse filme antes?

Nessas circunstâncias e em tantas outras semelhantes, os profissionais não têm alternativa. O melhor mesmo é que comecem a se mexer de maneira discreta, confidencial, responsável e profissional.

E como agir diante dessa realidade? Eis aqui, algumas recomendações que se colocadas em prática poderão, não apenas solucionar a sua inquietude profissional, mas também abrir novos caminhos e tornar a sua vida mais feliz e a sua carreira mais vigorosa e gratificante:

PRIMEIRA FASE

  • Localize as fontes de insatisfação para não incorrer nos mesmos erros e padrões, se eventualmente vier a mudar de empresa ou emprego. Avalie com isenção se a sua insatisfação decorre de seu ambiente de trabalho, das fontes de poder ou dos relacionamentos, entre outras questões.
  • Verifique o seu nível de aderência e adaptação a nova cultura estabelecida após tantas e tantas mudanças. Lembre-se que não é o mais forte o que sobrevive nos negócios, mas aqueles que têm a capacidade para se adaptar rapidamente às novas situações.
  • Identifiquem no âmbito de suas atribuições, quais são as suas reais e verdadeiras perspectivas de avanços. Cuidado com as falsas ilusões.
  • Diagnostique o nível de seu estresse físico e emocional. Afinal, ele pode ser uma das causas de sua insatisfação. Nada que um período prolongado de descanso não possa solucionar ou minimizar.
  • Reflita se a sua vida pessoal e familiar estão gerando insatisfação e preocupação e se elas deslocam para o seu ambiente de trabalho.
  • Avalie se você não está no meio de uma crise existencial que, na maioria das vezes, acompanha homens e mulheres em seu processo de amadurecimento.
  • “Prazo Vencido” simplesmente. O profissional não agrega mais valor nenhum à organização, ele não se adequa a sua cultura e também seu nível de comprometimento é nulo.

SEGUNDA FASE

  • Procure ajuda profissional, se puder. Nesse caso, o melhor e mais adequado é procurar um profissional experiente, culto, responsável, com conhecimento do mercado e ilibada reputação. Cuidado com os pretensos consultores e os modismos de mercado – não se torne mais uma de suas vítimas.
  • Estude o mercado de trabalho com profundidade, principalmente, suas tendências atuais e futuras. Evite a superficialidade – mudar de emprego simplesmente por mudar. Essa saída não resolve o seu problema. Você simplesmente o coloca para debaixo do tapete. E, como sabemos, ele mais tarde retornará com mais força. Aí, a mudança poderá ser tarde demais.
  • Planeje como você conduzirá e administrará a sua exposição ao mercado de trabalho. Além disso, estude e analise em profundidade as empresas de seu interesse. Afira as suas afinidades quanto a cultura, aos produtos, o ambiente, e o nível de sustentabilidade dos negócios. Toda a confidencialidade e discrição serão regras absolutas e obrigatórias.
  • Evite colocar em pânico os seus familiares. Aja com inteligência e prudência. Lembre-se que sua família poderá se sentir insegura e ameaçada com o seu desejo de mudança. Por outro lado, sua família poderá criar também expectativas irreais e que você não poderá satisfazê-las.

TERCEIRA FASE

Satisfeitas as exigências das fases anteriores, recomendo ainda as seguintes providências:

  • Não divulgue as suas reais intenções no seu ambiente de trabalho, por mais que você confie em seus amigos ou no seu chefe.
  • Continue trabalhando e dando o melhor de si mesmo em tudo o que faz.
  • Cuidado com os desvios de padrões comportamentais. Evite se vestir de maneira diferente do convencional, ter almoços prolongados com headhunters, se ausentar do ambiente de trabalho e utilizar os recursos da empresa para sua promoção no mercado.
  • Todos os seus pertences devem continuar no seu local de trabalho, inclusive os seus arquivos pessoais instalados no computador. Não dê sinais de que já iniciou o seu processo de saída.
  • Não seja ingênuo ou afoito. Jamais se candidate à vagas que não são claras ou que não se encaixam em seu perfil.
  • Em seus contatos pessoais e confidenciais, nunca dê os telefones de sua organização e o seu e-mail empresarial.
  • Crie recursos físicos adequados em sua própria residência – telefone com secretária eletrônica, e-mail, instruções aos membros de sua família e empregados do lar para que atendam todas as ligações com presteza e sigilo. De preferência, tenha um número exclusivo enquanto durar o seu processo de busca por novo trabalho.
  • Nunca responda a anúncios fechados. A sua empresa poderá estar pesquisando o mercado. Se você responder, ficará preso na armadilha.
  • Jamais aceite mudar de empresa simplesmente por questões financeiras. Não tenha apegos – salário, local, conforto, carro e tantos outros benefícios. Essas coisas não lhe pertencem. Cuidado, portanto, com essas e outras armadilhas.
  • Não aceite uma proposta de trabalho simplesmente para se livrar de sua insatisfação atual. A sua carreira poderá ficar comprometida e é muito mais difícil justificar sua curta permanência em nova empresa.

Caro leitor, ao ambicionar uma mudança em sua carreira, você deve se guiar pelos seguintes princípios básicos:

  • Quais são as reais perspectivas de crescimento e desenvolvimento que você vislumbra e o deixa apaixonado pelo novo trabalho?
  • Quais são os novos desafios apresentados? Eles são possíveis de ser alcançados?
  • O que você agregará de verdade ao seu novo empregador?
  • Qual será o seu nível de aceitação no novo ambiente de trabalho?

Agora, que você conquistou seu novo emprego, solicite a sua demissão em caráter irrevogável e de maneira graciosa e polida. Cuidado com o espírito de vingança que muitas vezes acompanha o profissional nessas horas. Não queime as pontes e não obstrua as estradas. Afinal, você nunca sabe quando voltará a encontrar seu ex-empregador ou quando necessitará dele. Seja grato e nunca cuspa no prato em que você comeu durante vários anos. Como alerta meu mestre, Baltasar Gracian, “a pessoa experiente bem sabe que é sinuoso o caminho dos méritos em si, sem o apoio do favorecimento. A benevolência facilita e completa tudo”. 

 

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