EMPREENDA UMA STARUP DE SI MESMO

Por Gutemberg B de Macedo

Enlightenment é à saída do homem de sua auto-imposta menoridade. Menoridade é a incapacidade de se servir de seu entendimento sem a direção de um outro. Ele próprio é culpado por tal menoridade se suas causas não residem na falta de entendimento, mas de resolução e coragem para usar seu próprio entendimento sem a direção de um outro. Sapere aude! Tem coragem de usar teu próprio entendimento!”

Immanuel Kant, 1724-1804

Filósofo prussiano, filho de um pobre artesão e considerado o mais importante filósofo da Era Moderna

 

O mundo e as organizações passam por abruptas, inquietantes e profundas transformações, cujas consequências deixam milhões e milhões de profissionais amedrontados, inseguros e, por vezes, totalmente paralisados. A ameaça de uma sociedade “Jobless” é uma realidade em nossos dias.

Há quase 30 anos (1900), Bill Clinton, ex-presidente dos Estados Unidos da América do Norte, proferiu discurso em que dizia: “Se você trabalhar duro e respeitar as regras, o sistema americano acabará por lhe proporcionar uma vida decente, num padrão de classe média, e a oportunidade de seus filhos levarem uma vida melhor do que a sua.”

Esse discurso envelheceu rapidamente. Hoje sabemos que as regras que norteavam homens e mulheres em suas vidas e carreiras foram modificadas de maneira radical e completamente. Portanto, ele não tem espaço na nova sociedade predominantemente dominada pela Inteligência Artificial, o automóvel autônomo, a nanotecnologia, a impressão em 3 D, a ciência dos materiais, computação quântica,  a internet das coisas e a robotização dos parques industriais  que eliminam anualmente milhões de empregos.

Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial, captou com grande lucidez os efeitos negativos dessas poderosas forças quando escreveu: “Diferentes categorias de trabalho, particularmente aquelas que envolvem o trabalho mecânico repetitivo e o trabalho manual de precisão, já estão sendo automatizados. Outras categorias seguirão o mesmo caminho, enquanto a capacidade de processamento continuar a crescer exponencialmente. Antes do previsto pela maioria, o trabalho de diversos profissionais diferentes poderá ser parcial ou completamente automatizado, a saber, advogados, analistas financeiros, médicos, jornalistas, contadores, corretores de seguro, bibliotecários.” (The Fourth Industrial Revolution”, 2016).     

É sabido também que os empregos com altos salários e os indivíduos com formação mediana também desaparecerão. Nesse sentido, vale reproduzir as palavras de duas figuras importantes e influentes: 

A primeiro, a do economista canadense Dominic Barton, diretor global da consultoria McKinsey, uma das mais respeitadas e conhecidas do mundo, em entrevista a Veja (Páginas Amarelas, 20 de setembro de 2017, págs. 15 a 17), declarou: “Entre 2005 e 2014, 70% das pessoas não tiveram aumento real de renda ou tiveram queda”.

A segunda, a do jornalista e escritor norte-americano Thomas L. Friedman: “Na era das acelerações, o empregado médio tornou-se um animal cada vez mais raro no zoológico. Ele pertence a uma categoria oficialmente em extinção.”

Há muitos anos, desde o inicio da década de 80, repito em meus Clips, artigos e palestras uma frase cunhada pelo renomado consultor e professor norte-americano Warren Bennis: “A fábrica do futuro terá apenas dois empregados: um homem e um cachorro. O homem para alimentar o cachorro e o cachorro para impedir que o homem se aproxime da máquina.”

Caro leitor, as exigências para a conquista de um novo posto de trabalho, a  permanência em seu emprego atual  e o seu crescimento à novas posições são por demais elevadas

atualmente.

Nesse ambiente de trabalho em rápida transformação, a capacidade de antecipar as tendências laborais e as necessidades em termos de conhecimentos e competências indispensáveis para adaptar-se, torna-se ainda mais critica. Portanto, se você não passar por um processo de renovação diariamente em todas as dimensões e ângulos de sua vida e carreira, fatalmente será expelido dela.

Jeff Inmelt, atual CEO da General Electric, em discurso para os formandos da Stern School of Business da Universidade de Nova York, em 20 de maio de 2016, expressou de maneira peremptória essa necessidade: “A tecnologia aumentou as exigências competitivas para as empresas e para as pessoas.”

E quais são essas competências? Aqui estão algumas delas: Habilidades cognitivas e sociais, capacidade para solucionar problemas complexos, flexibilidade, mobilidade, visão oceânica das coisas, liderança inspiracional e transformadora, sensibilidade humana para detectar as necessidades de seus stakeholders e satisfazê-las imediatamente, navegar em oceano multicultural e pluralista, etc.    

John Hagel, especialista em gestão, citado por Thomas L. Friedman em sua obra “Thank You for Being Late: An Optimist’s Guide to Thriving in the Age of Accelerations”, expressou essa mesma verdade de maneira brutal: “Existe uma crescente exigência sobre todos nós em prol de um melhor desempenho – como indivíduos e instituições. Toda essa conectividade implica barreiras significativamente mais baixas para entrar e para se movimentar, mudanças em velocidade acelerada e a ocorrência cada vez mais frequente de eventos extremos, desestabilizadores, os quais exercem uma grande pressão sobre as nossas instituições […] Num nível pessoal, o exemplo que emprego é o de um outdoor que costumava ficar numa autoestrada aqui perto, no Vale do Silício e que fazia uma única pergunta: “Como você se sente sabendo que existem pelo menos 1 milhão de pessoas no mundo capazes de fazer o seu trabalho”?  

Nessa nova sociedade e ambiente empresarial, muitas vezes nos sentimos como aquele personagem descrito pelo cantor e compositor carioca Chico Buarque de Holanda, em sua belíssima música “Roda-Viva”:

“Tem dias que a gente se sente 

Como quem partiu ou morreu

Agente estancou de repente

Ou foi o mundo então que cresceu

A gente quer ter voz ativa

No nosso destino mandar

Mas eis que chega a roda-viva

E carrega o destino pra lá.

Sim, é verdade que o destino muitas vezes nos pega completamente de surpresa e acarreta o descarrilamento de nossas carreiras. No entanto, se ficarmos atentos às tendências de mercado e agirmos rapidamente, dificilmente “chega à roda-viva e carrega o nosso destino pra lá”. E, se porventura isso ocorrer, você estará preparado para que a roda gire em seu favor e não contra.

Á luz de minha longa carreira consultiva acredito que a melhor maneira de você gerenciar a “roda-viva” de seu destino é “Empreender uma starup de si mesmo”. Sem essa compreensão e ação, você “estancará de repente”.

Empreender uma starup de si mesmo não é uma tarefa fácil. Ela é mais difícil do que se pode supor. O nível de dedicação necessário é bem maior do que imaginam aqueles profissionais que nunca sentiram a necessidade de fazê-la.  

Certamente, você me perguntará: Quando, onde, como e por que devo empreender uma startup de mim mesmo?

Vamos às respostas para suas indagações:

Primeira – Quando?

Imediatamente. A hora é agora. Você não deve desperdiçar os melhores anos de sua vida concentrado em um projeto de carreira que não o levará a nenhum lugar. Aqui vale lembrar as palavras de Geraldo Vandré, advogado, cantor e compositor paraibano:

 “Vem, vamos embora

 Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer.”

Segunda – Onde  

Não importa em que tipo de organização ou que posição ocupa nela atualmente, o melhor mesmo é que você se mexa o mais rápido possível e se torne o empreendedor de si mesmo.

Saliento que você não necessita necessariamente abdicar de seu emprego atual a fim de empreender uma starup de si mesmo. Você pode empreender uma carreira totalmente diferenciada onde está atualmente,  se simplesmente trabalhar como  empreendedor de seu próprio destino. Lembre-se que você não trabalha para seu empregador. Você trabalha para você mesmo.

Se você tem aptidões e habilidades que não estão sendo postas em prática em seu trabalho, pense em como esses talentos poderiam ser benéficos para seu empregador.  Se identificar alguma possibilidade, pergunte a seu superior imediato se pode aplicar suas habilidades, mesmo que essas não estejam diretamente relacionados com suas responsabilidades atuais.

Seu superior imediato pode ter o prazer de utilizar seu talento de forma mais eficaz, aumentando assim seu valor para a organização.

Na verdade, você vende diariamente o seu conhecimento, experiência, talento humano e gerencial.  No momento em que você deixar de cumprir o seu contrato ele fatalmente será interrompido.

Terceira – Como

Não existem regras fixas para a construção de um empreendimento de si mesmo.  Podemos pesquisar, estudar e nos inspirar nas experiências dos luminares das starups pessoais ou empresariais. Cada individuo o constrói com o tamanho de seus sonhos, objetivos, valores,  talento pessoal, competência técnica e gerencial, características de personalidade, nível de ambição,  inteligência relacional, emocional, social, politica e espiritual, grau de inventividade e criatividade, nível de energia, disposição para o trabalho duro, entre inúmeros outros pontos.

Quarto – Por que

 A resposta a essa indagação é de obvia e simples resposta.  O mundo não está apenas mudando rapidamente com escreveu Don Seidman, mas está sendo drasticamente reconfigurado – está começando a operar de maneira diferente em varias esferas ao mesmo tempo. E essa configuração está acontecendo mais rápido do que conseguimos reconfigurar a nós mesmos, assim como nossas lideranças, nossas instituições, nossas sociedades e nossas escolhas éticas.

A ideia do emprego para toda a vida é algo do passado. O mesmo pode-se dizer do planejamento de carreira elaborado pelas empresas para seus colaboradores. Agora, você está por conta própria. Daí a necessidade critica de você empreender uma starup de si mesmo.

Nos dias atuais aqueles profissionais que não se comprometerem com a construção das próprias starups trabalharão em um mundo que não existe mais.

As exigências das empresas, a competição exacerbada e a ênfase dada a meritocracia – administração feita pelos melhores – acabará por expelir todos aqueles que não se enquadrarem no novo perfil – “Empreendedores de si mesmos”.

O empreendimento de uma Starup de si mesmo requer:

A descoberta do seu verdadeiro “Calling” (chamado);

Uma reflexão profunda sobre as experiências pessoais vividas, os aprendizados obtidos e as conquistas mais importantes obtidas;

Um assessment de seus reais interesses pessoais e profissionais;

Um planejamento estratégico para os próximos cincos anos;   

A exploração – pesquisa sobre suas reais opções e qual delas é a mais compatível com o seu chamado;

A gestão da carreira profissional como um negócio;

Lançamento agressivo de sua campanha mercadológica – definição de si mesmo, pesquisa sobre seu mercado de trabalho e a promoção de si mesmo;

A venda de si mesmo – interna e externamente;

A realização periódica de avaliações de desempenho a cada quinze dias;

A comemoração de todas as conquistas – não importa o seu tamanho e repercussão; 

Caro leitor, acredito que a continuidade e o sucesso da carreira de um profissional nos dias atuais dependerá totalmente de sua capacidade para empreender uma starup de si mesmo. ‘The best job security is a life brand that offers value and service.” (Stedman Graham, Build Your Own Life Brand, 2001).      

4 thoughts on “EMPREENDA UMA STARUP DE SI MESMO”

  1. Grande Mestre, excelente material. Já estamos assistindo este filme no dia-a-dia. No passado tinhamos como grande marco a estabilidade, atualmente a agressividade positiva, o empreendedorismo, o gerenciar mudanças, e todas as mudanças geradas pela globalização. O tema vale para profunda reflexão e rápida tomada de decisão … Start Up imediato, ou ficará obsoleto!!! Fique com Deus!!!

  2. Nossa faz tempo que não leio algo que conecte tanto com minha linha de pensamento. Comecei a fazer isso na minha carreira.
    O pensamento de a empresa deve me treinar, não sou pago pra isso, não é problema meu, etc… Não cabe mais nossa dias atuais, continue pensando assim e padeça profissionalmente.
    Baita texto.

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