AS TOLICES QUE COMETEMOS NOS CONDUZEM À SITUAÇÕES EMBARAÇOSAS E À LUGARES NUNCA ANTES DESEJADOS

Por Gutemberg B. de Macedo

  

“Em geral, na natureza humana existe mais tolice do que sabedoria.” 

Francis Bacon, 1561-1626

Filósofo, ensaísta e político inglês   

 

“Há duas coisas infinitas: o Universo e a tolice dos homens.” 

Albert Einstein, 1879-1955

Cientista renomado e criador da Lei da Relatividade

A prática da tolice é endêmica na vida cotidiana de homens e mulheres, indistintamente. Não importa o berço, grau de escolaridade formal, posição que porventura ocupe na sociedade,  idade cronológica ou até mesmo o nível de experiência. Daí a observação de Elbert Hubbard, 1856-1915, filósofo e escritor norte-americano: “Todo homem é uma grande idiota pelo menos durante cinco minutos por dia. A sabedoria consiste em não exceder esse limite.”

A materialização desse comportamento pode ser visto ainda nas expressões paulinas, “Porque o que faço não o aprovo, pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço;” “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não que quero esse faço.” (Carta aos Romanos 7. 15 e 19).

A tolice humana se manifesta de várias maneiras e nas mais diferentes circunstâncias da vida – pessoal, profissional e familiar:

  • Pessoal – quando atribuímos aos outros os nossos descarrilamentos e insucessos; quando manifestamos a tendência de nos ressentir ante a crítica e aceitar com alegria os elogios, sem considerarmos se esses são verdadeiros e honestos; quando preferimos viver uma vida amargurada e infeliz, simplesmente porque não desejamos ver e aceitar as nossas vulnerabilidades e imperfeições – tememos o espelho; quando nos julgamos superiores aos nossos semelhantes por fatores diversos – beleza física, berço, formação acadêmica, posição social, fortuna pessoal ou familiar; quando insistimos em fazer as coisas por teimosia ou simplesmente porque essa é a maneira como sempre fizemos – “a síndrome da Gabriela”; quando não nos preparamos para o futuro por meio da poupança, da atualização constante de nossos conhecimentos e experiências, da ampliação estratégica de nossa rede de relacionamento, entre tantas e tantas outras tolices.
  • Familiar – Quando escolhemos mal o nosso cônjuge no início de nossa carreira; quando delegamos a educação de nossos filhos a babas eletrônicas ou semi-analfabetas; quando privilegiamos nossas carreiras em detrimento de um casamento feliz e de uma vida familiar saudável; quando priorizamos o trabalho em detrimento de uma relação familiar duradoura e rica; quando colocamos para debaixo do tapete as nossas diferenças, insatisfações, problemas e erros, na suposição de que eles serão solucionados por eles mesmos; quando vivemos apenas de aparência – para o mundo lá fora somos a família mais feliz do mundo, mas no mundo interno de nossos lares, vivemos um mundo verdadeiramente de cão – o nosso lar se parece mais com um campo de guerra.
  • Profissional – Escolhemos mal a empresa onde trabalhamos e com freqüência dizemos que ela nos enganou durante o processo seletivo; não empreendemos o nosso trabalho como devíamos e culpamos os nossos subordinados pelos nossos constantes fracassos; não avançamos em nossa carreira e atribuímos essa estagnação profissional à economia do país, aos nossos superiores imediatos que não reconhecem os nossos méritos e, muito menos, desejam ser cobertos pela nossa sombra – “Eles não desejam criar cobras para mordê-los”; não valorizamos e não investimos no nosso autodesenvolvimento e culpamos a empresa onde trabalhamos pela nossa obsolescência técnica e gerencial; vivemos vidas desbalanceadas e culpamos as empresas onde trabalhamos pelos nossos desajustes; não investimos no cultivo dos saberes softs – habilidade política, relacionamento interpessoal, comunicação oral e escrita, liderança, etc. Essa é uma posição verdadeiramente cômoda, visto que não necessitamos olhar, analisar e refletir sobre as tolices que cometemos ao longo da vida e carreira.

Caro leitor, os tolos nunca olham para dentro de si mesmos. Eles preferem sempre  olhar para fora de si mesmos. Daí porque, eles costumam censurar os outros pelas suas complicações, deslizes, inconveniências, erros, dissabores, infelicidades e fracassos. 

Infelizmente, muitos tolos somente descobrem isso, as tolices que cometeram, muito tempo depois e quando as suas carreiras já estão em descarrilamento ou declínio. Para muitos é tarde demais.

Portanto, aqui vale lembrar as palavras de Napoleão Bonaparte, 1769-1821, político, militar corajoso e imperador da França, “Ninguém, a não ser eu mesmo, pode ser culpado de minha queda. Fui sempre o meu maior inimigo – a causa de meu próprio destino desastroso.”  Nessa ocasião, ele estava em Santa Helena.

É bom lembrá-lo ainda as palavras de Laurel Cutler em um artigo de 1988 do Wall Street Journal: “Eu gostaria de ter sabido antes que, quando se perde uma peça de teatro ou um jogo de um filho, um ano depois você já terá esquecido a emergência profissional que provocou sua ausência. Mas a criança não terá esquecido que você não estava lá. Eu aprendi a lição, mas não a tempo de usá-la com meus filhos.” 

Se examinarmos a história recente descobriremos uma quantidade enorme de tolices praticadas por executivos que os conduziram à lugares indesejados – a demissão, a desmoralização pública, à prisão, etc.

  • O Presidente Michel Temer manteve encontro suspeito com o empresário Joesley Batista, do grupo JBF, as 22h30 no Palácio Jaburu. Encontro que pode lhe custar o mandato de Presidente da República.
  • Scott Thompson, ex-CEO da Yahoo, foi demitido dessa organização simplesmente porque mentiu no seu currículo. Que tolice!
  • Mark Hurd, ex-CEO da H&P, foi demitido porque fez propostas românticas agressivas em jantares a uma prestadora de serviços da companhia, Jodie Fisher, e depois solicitado favores sexuais em troca de trabalho. Que tolice! Tudo isso com o dinheiro da companhia.
  • Abílio Diniz, herdeiro e construtor do Pão de Açúcar, viu sua reputação ser arranhada simplesmente porque não consultou seu sócio francês quando desejou se fundir com o grupo Carrefour.
  • Jeffrey Skilling, ex-menino de ouro da empresa de consultoria global, McKinsey & Company, e posteriormente presidente da Enron, amarga em prisão nos EUA pelas fraudes detectadas na contabilidade de sua empresa. Que tolice!

Mas veja o que seu colega de classe, Clayton Christensen, em livro, “How will you measure your life,” escreveu sobre ele: “The Jeffrey Skilling I knew of from our years at Harvard Business School was a good man. He was smart, he worked hard, he loved his family. He had been one of the youngest partners in McKinsey & Co.’s history and later went on to earn more than $100 million in a single year as Enron’s CEO.”

  • Daniel Pégaso (nome fictício por questões confidenciais), diretor de marketing de grande empresa multinacional, líder de mercado, atualmente em transição de carreira, foi demitido após 11 meses de trabalho, simplesmente porque não avaliou com profundidade a natureza dos negócios e não soube fazer uma leitura sobre os seus pares. Ele confessou que no terceiro mês em sua nova empresa descobriu que tinha feito uma tolice em sua carreira e que não estava preparado para o exercício da função de diretor. A empresa não era o lugar certo para ele. Ele me disse ainda que durante os últimos meses ia para as reuniões de diretoria e se mantinha totalmente calado – “Estava totalmente travado. Mesmo que desejasse ter falado naquelas reuniões, as palavras não saiam. Eu estava verdadeiramente com medo. Nunca tive isso antes.” Que tolice!
  • Quantos profissionais não interrompem ou destroem suas carreiras e reputação por uma simples fraude na apresentação de seus comprovantes e relatórios de despesas? E mais: Quantos profissionais expõem suas carreiras e empresas de forma negativa em seus círculos de amizades em conversas informais e, aparentemente, inofensivas?

Caro leitor, quais foram as maiores tolices que você cometeu nos últimos anos de sua vida e carreira? Você as registrou em uma folha de papel para revê-las com certa freqüência, a fim de não cometê-las outras vezes?  Como você reagiu àqueles que chamaram sua atenção pelas tolices que cometeu – com raiva, com desprezo ou com gratidão? Qual o preço que teve de pagar por elas?

Há uma expressão de François de La Rochefoucauld, 1613-1680, militar e moralista francês, que gosto muito: “As opiniões de nossos inimigos aproximam-se mais da verdade do que as nossas próprias.” Portanto, nunca despreze as críticas que lhe são feitas. Salomão, sábio judeu, advertiu: “A palavra do sábio é uma fonte de vida para desviar os homens dos laços da tolice e da morte.” (Provérbios 13.14)

Desde a minha juventude no Colégio Batista Bereiano, Natal, RN, cultivo o hábito de escrever o meu diário. Todos os dias, religiosamente, registro os fatos mais importantes que vivenciei, presenciei, li ou ouvi na minha sala de trabalho.

Nas últimas décadas, escrevo mais ainda, visto que reúno histórias fascinantes do meu dia-a-dia consultivo – intrigas políticas nas organizações, assédios morais e sexuais, traições conjugais, demissões justas e injustas, obsolescência gerencial, mediocridade e incompetência generalizadas, estagnação profissional, fraudes e tentativas de suborno, opções erradas de carreira, egos inflados, ostentação, psicopatia gerencial, falsidade – executivos brincam com as aparências e deixam que as pessoas ao seu redor vejam apenas aquilo que eles querem; manipulação e trapaças entre inúmeras outras histórias.

Quero frisar que esses diários contêm também histórias de sucesso, superação, desenvolvimento pessoal e profissional, solidariedade, bondade, compaixão, amor, amizade verdadeira, lealdade, humildade e ética pessoal e profissional.  

Com grande freqüência, volto sistematicamente à leitura desses diários e as historias neles contidas. É uma experiência fascinante e renovadora, uma vez que lá estão registrados algumas das maiores tolices observadas no mundo executivo.       

Sim, todos nós, diariamente, cometemos nossas tolices, apesar de muitas vezes não percebermos. Eu, pessoalmente, já cometi inúmeras delas. Mas elas estão lá e podem manchar a nossa imagem e reputação. Daí porque é tão importante registrá-las e agirmos sobre elas diariamente, a fim de não cometê-las novamente.  

No momento em que escrevo este artigo me vêem à mente um exemplo sublime sobre como devemos agir diante dessa realidade – as nossas tolices.

Ele nos vem de Benjamin Franklin, 1706-1790, jornalista, cientista, político, filantropo e empreendedor bem-sucedido norte-americano.

Segundo relatam seus biógrafos, ele costumava se examinar severa e diariamente – todas as noites – antes de dormir. Nesses exames noturnos, ele descobriu que tinha treze defeitos graves. Eis alguns deles: desperdiçava o tempo, enfurecia-se com ninharias e discutia com pessoas que o contradiziam.

O renomado cientista e político compreendeu que, a menos que ele reduzisse o número de suas tolices, não iria muito longe em sua vida. Assim partiu para eliminá-las. Durante dois anos ele se empenhou em removê-las uma por uma de sua conduta e comportamento. (Sugiro que meus leitores adquiram e leiam o livro, “Ben Franklin – America’s Original Entrepreneur” adptado por Blaine McCormick).

Caro leitor, há momentos em nossas vidas que temos de parar e examinar a maneira como agimos em relação a nós mesmos, aos nossos familiares e aqueles com os quais passamos 75% de nosso tempo útil – nossos subordinados, pares, superiores imediatos, credores, fornecedores, clientes, etc. Desse exame interno depende a nossa saúde, humor, felicidade, prosperidade e sucesso.

Portanto, eis algumas das minhas recomendações, todas extraídas da minha longa experiência no aconselhamento a presidentes, diretores e gerentes de grandes corporações:

  • Aceite as suas imperfeições.

Não tenha medo de se ver no espelho. “Aquele que não tem pecado que atire a primeira pedra,” disse Cristo à multidão que desejava apedrejar uma mulher apanhada em adultério.

A melhor descoberta de sua vida é saber que você é ignorante sobre si mesmo e que a sua natureza é corrupta por natureza. O historiador Will Durant certa ocasião disse: “Sixty years ago I knew everything; now I know nothing. Education is the progressive discovery of our own ignorance.” É a partir dessa convicção que você começa a empreender as mudanças em você mesmo.

  • Não tenha medo de mudar.

 Quando for tentado a resistir a idéia de solicitar feedback de outras pessoas sobre suas tolices, pergunte a você mesmo “por que”? O que você teme perder? Controle? Segurança? Autoestima? Prestigio? Poder? Status? Relacionamentos?  Salário e bônus?

Se você tem medo de mudar pelos motivos acima, prepare-se: você pode estar à caminho do suicídio profissional. Eu tenho visto isso acontecer com muita regularidade. Permita-me mais uma vez lembrá-lo a recomendação do maior apóstolo do cristianismo, São Paulo, “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento.”

  • Solicite feedback de pessoas que você admira.

O feedback é um dos veículos mais valiosos que você pode usar para correção de suas tolices. Portanto, escolha pessoas que você admira e respeita e peça o seu feedback genuíno. Quanto mais freqüentes forem os feedbacks recebidos ao longo de sua carreira, melhor para você.

  • Identifique as tolices que você praticou ou pratica com frequência.

Algumas dessas tolices são facilmente percebidas: falar mal de sua organização para um cliente, concorrente, fornecedor ou credor; denegrir a imagem de um superior imediato,  pares ou subordinados; contar piadas inadequadas nos momentos e lugares errados;  sentir-se sempre boicotado pelos outros; nunca reconhecer os próprios erros; culpar os outros pelos seus desacertos; apresentar desculpas esfarrapadas sobre o que deixou de fazer; apresentar-se de maneira inadequada no ambiente de trabalho ou fora dele; utilizar linguagem chula em reuniões; mentir sobre qualificações acadêmicas ou profissionais que não têm comprovação; falar alto pelos corredores e lanchonete da companhia; chegar atrasado para as reuniões; desrespeitar o tempo das pessoas, entre inúmeras outras.

Certa ocasião, li uma expressão que diz:  “To know ourselves diseased is half our cure.” (“Conhecer as nossas enfermidades é metade de nossa cura”).

Sim, caro leitor, se você não é capaz de identificar as tolices que diz ou pratica, como poderá erradicá-las de sua vida? É impossível!

Há um exemplo extraído da vida do financista norte-americano, H. P. Howell, que nos instrui de maneira eloqüente nesse sentido.

Eis as suas sábias palavras: “Há muitos anos mantenho um caderno de anotações em que marco todos os compromissos que tenho durante o dia. Minha família nunca faz plano algum para as noites de sábado, pois todos em casa sabem que dedico essas noites a um autoexame e a uma análise e julgamento do trabalho executado durante a semana. Depois do jantar, recolho-me ao meu escritório, abro o meu livro de apontamentos e penso em todas as entrevistas, discussões e reuniões que se realizaram desde a última segunda feira. Pergunto a mim mesmo: ‘Que erros e tolices cometi esta vez? Que é que fiz de certo – e de que modo pude melhorar a minha atuação?  Que lições posso tirar dessas experiências?  Verifico, às vezes, que esse exame semanal me torna muito infeliz. Outras vezes, surpreendo-me com os meus próprios erros e tolices. Naturalmente, à medida que os anos vão passando, tais erros se tornam cada vez menos freqüentes.”

Caro leitor, reconheço que as palavras deste texto não esgotam a discussão sobre esse assunto. Entretanto, enfatizo: ele é de vital importância para aqueles profissionais que ambicionam se destacar no mar da mediocridade e da superficialidade hoje verificada na vida de muitas pessoas e também das organizações.

A infelicidade vivida por muitos dos nossos profissionais, o desmantelamento das famílias de executivos considerados bem-sucedidos, a luta profissional mortal que empreendem nos dias atuais pela própria sobrevivência poderia ser atenuada ou mesmo sanada, se eles parassem para uma reflexão mais demorada sobre as suas vidas pessoais, familiares e profissionais.

Eis algumas perguntas para sua reflexão sobre esse assunto:

  • Você tem o hábito de empreender, todos os dias, um autoexame sobre os seus erros e acertos?
  • Com que frequência você solicita feedback sobre sua imagem, postura e comportamento em sua organização?
  • Como você encara as críticas que lhe são feitas?
  • Qual é o seu nível de flexibilidade face às mudanças?
  • Quando o seu cônjuge lhe chama a atenção sobre determinados assuntos relacionados à família, como você reage?
  • Quem gerencia a sua carreira? Você, seu chefe, sua empresa?
  • Que valor você atribui à sua família x carreira x sucesso profissional?
  • Qual o grau de felicidade ou infelicidade que você encontra no trabalho? Você é capaz de apontar racionalmente as suas causas?
  • Quais as tolices que disse ou fez que prejudicaram sua carreira? E o que você fez para corrigi-las?
  • Você tem um caderno – diário – onde toma nota dos erros e acertos de sua vida? Se você não tem, que tal começar a registrá-los a fim de não voltar a cometê-los?
  • Você já participou de um projeto de executive coaching? O que você aprendeu e o que colocou em prática?
  • Qual é o seu “Cultural Mandate”?
  • Quem é o seu conselheiro mais valioso?

 

 

2 thoughts on “AS TOLICES QUE COMETEMOS NOS CONDUZEM À SITUAÇÕES EMBARAÇOSAS E À LUGARES NUNCA ANTES DESEJADOS”

  1. Excelente, professor. Instrutivo. Reforça a idéia de conhecermos melhor nosso comportamento, e o que devemos fazer para aprimora-lo. Sábias palavras.

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